domingo, 3 de agosto de 2014

Sobre Fausto Fanti e algumas identificações

Essa semana faleceu Fausto Fanti, humorista da trupe Hermes e Renato. Perda lamentável para o humor mesmo sem o reconhecimento justo tanto para a pessoa quanto para o grupo. O fato de fazer maior sucesso em rede fechada de TV (ou de um canal com pouca visibilidade e direcionado a um público específico, que era a MTV) e ter muita coisa “censurada” ao ir para um canal maior contribuiu para o destaque aquém do merecido.
O humor do Hermes e Renato se baseava em esquetes que fugiam do politicamente correto imposto de humor escrachado que misturava tons de cinema nacional dos anos 70 (palavrões a rodo e sem razão de ser) e uma pitada de Nelson Rodrigues em seus diálogos. Acresce-se a isso uma produção, em seu princípio, amadora, tosca e que foi “melhorada” depois sem perder a essência da simplicidade até porque já ficou de marca registrada.
Algo a saber sobre o Hermes e Renato é sua origem. Trata-se de um grupo de cinco amigos de Petrópolis que, no final de sua adolescência, no começo dos anos 2000, gravava vídeos com esquetes num “faça-você-mesmo” puro e sem qualquer vergonha do ridículo. Com alguns vídeos gravados, os amigos tiveram a coragem (ou falta de vergonha) de mandá-los para a MTV, que passava vídeos caseiros durante os intervalos de sua programação. O produto agradou e a MTV os contratou trazendo o grupo pra São Paulo, alugando uma casa para eles morarem. O resto foi história e ela terminou tristemente nesta quinta-feira com a morte de um dos integrantes. Aparentemente, um suicídio. Da minha parte, grande fã dos programas do Hermes e Renato e que acompanha o grupo desde seu início, o lamento é maior. Primeiro porque eu declaradamente gostava dos caras. Segundo porque Fausto tinha a minha idade, 35 anos e o grupo oscilava nessa faixa, a mesma minha e dos meus amigos. Éramos adolescentes curtindo adolescentes na TV.
Quando éramos mais novos, eu, meus amigos e os próprios rapazes do Hermes e Renato, eu e meus amigos tínhamos uma brincadeira em família aos fins de ano. Escolhíamos fatos acontecidos durante o ano entre os mais inusitados, engraçados, ridículos e dávamos o Prêmio M. A melhor parte dessas “premiações” era justamente as filmagens das “reconstituições” dos episódios premiados. Havia muita influência do Hermes e Renato nessa brincadeira, sem dúvida. Também havia, na nossa turma, o hábito de fazer vídeos antes dos tais Prêmios M. Coisas bobas, paródias de programas famosos à época, gracinhas adolescentes. O teor era mais ou menos o mesmo do que fez o Hermes e Renato famoso depois. Decididamente havia muito deles em nós mesmo antes deles “acontecerem”.
Hoje, nós, eu e meus amigos, estamos mais velhos e mais maduros. Quase todos somos pais, como Fausto que deixou uma filha. Os Prêmios M, com o passar do tempo, foram se tornando cansativos devido à obrigação de “sempre fazer”. Pra nós, a brincadeira perdeu a graça quando virou compromisso. Paramos. Eles continuaram por muitos anos depois. A brincadeira rendeu dinheiro e virou profissão. Frutificou sucesso, ainda que restrito. Para nós, eles continuaram sendo engraçados. Para mim, mais que engraçados, eles são uma referência e um exemplo de como ter sucesso fazendo coisas divertidas. Um dos meus amigos diz que a grande diferença entre nós e eles foi a coragem em mandar os vídeos para a MTV. E ter uma “perucoteca” mais farta. Parando pra pensar, para Fausto, chegou uma hora que a brincadeira deixou de ser divertida também. Mas a forma que com que ele resolveu parar com ela foi a mais “Joselito
possível: Totalmente sem noção. E, diferente do personagem, sem graça nenhuma. Descanse em paz.