Já gostei muito de carnaval. Já pulei carnaval em salão,
inclusive. No carnaval, ainda, foi a única vez em que fiquei bêbado, uma experiência
horrível piorada por uma ressaca monstra. Desde então, passei a me afastar do
carnaval. Me faltava pique para curti-lo mais. Assumi, definitivamente, minha
paixão pelos desfiles via TV e por ela continuei minha folia.
Eram tempos em que não havia redes sociais, e se as havia
não eram tão onipresentes e contundentes como hoje. Não havia tanta opinião nem
tanta militância pró ou contra alguma coisa. Apenas curtia o carnaval quem
gostava e ficava alheio, vendo filmes, lendo livros, fazendo qualquer coisa,
quem não gostava. Com o advento, primeiro, do Orkut e mais tarde do Facebook,
Twitter, Instagram e outros, a coisa virou um verdadeiro fla-flu. Quem gosta de
carnaval louva a cultura brasileira, a identidade nacional, a alegria em se
divertir, a beleza dos desfiles, dos blocos, dos trios-elétricos. Quem não
gosta fala da promiscuidade, da música rasteira, da malícia demasiada, lembra
os carnavais românticos de mil novecentos e vovó mocinha. Há exageros e desconhecimento
e lugares-comuns nos dois fronts. Debate enriquecedor é algo que não se propõe.
Os achismos e as opiniões tomam o lugar do embasamento. Talvez isso seja justo,
afinal rede social não é simpósio ou assembleia pra discussões profundas, mas também
não é casa da luz vermelha pra sair xingando a mãe dos outros.
Que hoje o carnaval não é aquele de anos atrás, qualquer um
sabe e vê. Que virou um negócio, basta ver que um abadá em salvador tá saindo,
por baixo, quinhentos reais e você pode fazer um igual comprando uma camiseta
de dez mangos mais dez mangos em frufrus pra enfeitar. Que há promiscuidade,
perversão e luxúria, há mesmo e – novidade – não é de hoje. O homem é um ser
sexual. A luxúria existe 365 dias por ano, mas no carnaval encontra uma
justificativa. Também não acho que o carnaval mereça esses fumos
patriota-nacionalistas que muita gente atribui a eles. Carnaval não é tão
identificado assim com a nação assim, mas com parte dela. Sua identificação é
do tamanho da do carimbó, da congada, do boi-bumbá e tantos outros elementos
festivos. Apenas é mais exportada. Tem um marketing maior por trás, mas é parte
de um mosaico, comum num país do porte o Brasil. A cultura brasileira é muito
variada. Injusto dizer que o carnaval seja algo característico do Brasil sendo
que nem brasileiro genuinamente é. Mas tão abrasileirado foi e tantos elementos
aglutinou que quem vê o carnaval de Veneza ri ao ver e ao saber que a coisa
começou lá.
Para quem não gosta de carnaval, fica a sutil dica de não
sair de casa durante os cinco dias da festa, já que a sexta-feira já faz parte
dela também. Programe-se, viaje ou fique em casa. Nada o proíbe,
democraticamente, de não gostar de uma festa popular, muito menos de manifestar
isso. Mas a crítica feita com o mínimo de embasamento e o máximo de respeito é
sempre melhor vista e mais bem vinda. A fuga dos lugares-comuns e os chavões
tipo “em fevereiro as mina pira e em novembro as mina pari” são vazios e
preconceituosos. Da mesma forma, se você gosta de carnaval, tome cuidado pra
não ser arrogante. Existem festas tão divertidas quanto o carnaval e ritmos
igualmente empolgantes. Não meça ninguém pelo que toca em sua playlist, e isso
vale para as duas bandas.
No mais, para quem curta e quem não curta o carnaval, essa
festa transformada em brasileira, mas dia a dia mais cheia de influências
brasileiras e estrangeiras por ser dinâmica e democrática, fica os votos de um
bom divertimento da forma que melhor aprouver. Do meu lado, tentarei assistir
os desfiles até o sono chegar. Minha paixão por carnaval sempre acaba aí, pois
mais que gostar de carnaval, gosto de dormir.
