sábado, 1 de março de 2014

Aos que não gostam de carnaval (e aos que gostam também)

Já gostei muito de carnaval. Já pulei carnaval em salão, inclusive. No carnaval, ainda, foi a única vez em que fiquei bêbado, uma experiência horrível piorada por uma ressaca monstra. Desde então, passei a me afastar do carnaval. Me faltava pique para curti-lo mais. Assumi, definitivamente, minha paixão pelos desfiles via TV e por ela continuei minha folia.
Eram tempos em que não havia redes sociais, e se as havia não eram tão onipresentes e contundentes como hoje. Não havia tanta opinião nem tanta militância pró ou contra alguma coisa. Apenas curtia o carnaval quem gostava e ficava alheio, vendo filmes, lendo livros, fazendo qualquer coisa, quem não gostava. Com o advento, primeiro, do Orkut e mais tarde do Facebook, Twitter, Instagram e outros, a coisa virou um verdadeiro fla-flu. Quem gosta de carnaval louva a cultura brasileira, a identidade nacional, a alegria em se divertir, a beleza dos desfiles, dos blocos, dos trios-elétricos. Quem não gosta fala da promiscuidade, da música rasteira, da malícia demasiada, lembra os carnavais românticos de mil novecentos e vovó mocinha. Há exageros e desconhecimento e lugares-comuns nos dois fronts. Debate enriquecedor é algo que não se propõe. Os achismos e as opiniões tomam o lugar do embasamento. Talvez isso seja justo, afinal rede social não é simpósio ou assembleia pra discussões profundas, mas também não é casa da luz vermelha pra sair xingando a mãe dos outros.
Que hoje o carnaval não é aquele de anos atrás, qualquer um sabe e vê. Que virou um negócio, basta ver que um abadá em salvador tá saindo, por baixo, quinhentos reais e você pode fazer um igual comprando uma camiseta de dez mangos mais dez mangos em frufrus pra enfeitar. Que há promiscuidade, perversão e luxúria, há mesmo e – novidade – não é de hoje. O homem é um ser sexual. A luxúria existe 365 dias por ano, mas no carnaval encontra uma justificativa. Também não acho que o carnaval mereça esses fumos patriota-nacionalistas que muita gente atribui a eles. Carnaval não é tão identificado assim com a nação assim, mas com parte dela. Sua identificação é do tamanho da do carimbó, da congada, do boi-bumbá e tantos outros elementos festivos. Apenas é mais exportada. Tem um marketing maior por trás, mas é parte de um mosaico, comum num país do porte o Brasil. A cultura brasileira é muito variada. Injusto dizer que o carnaval seja algo característico do Brasil sendo que nem brasileiro genuinamente é. Mas tão abrasileirado foi e tantos elementos aglutinou que quem vê o carnaval de Veneza ri ao ver e ao saber que a coisa começou lá.
Para quem não gosta de carnaval, fica a sutil dica de não sair de casa durante os cinco dias da festa, já que a sexta-feira já faz parte dela também. Programe-se, viaje ou fique em casa. Nada o proíbe, democraticamente, de não gostar de uma festa popular, muito menos de manifestar isso. Mas a crítica feita com o mínimo de embasamento e o máximo de respeito é sempre melhor vista e mais bem vinda. A fuga dos lugares-comuns e os chavões tipo “em fevereiro as mina pira e em novembro as mina pari” são vazios e preconceituosos. Da mesma forma, se você gosta de carnaval, tome cuidado pra não ser arrogante. Existem festas tão divertidas quanto o carnaval e ritmos igualmente empolgantes. Não meça ninguém pelo que toca em sua playlist, e isso vale para as duas bandas.
No mais, para quem curta e quem não curta o carnaval, essa festa transformada em brasileira, mas dia a dia mais cheia de influências brasileiras e estrangeiras por ser dinâmica e democrática, fica os votos de um bom divertimento da forma que melhor aprouver. Do meu lado, tentarei assistir os desfiles até o sono chegar. Minha paixão por carnaval sempre acaba aí, pois mais que gostar de carnaval, gosto de dormir.

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