sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Eu e Renato, Renato e eu

Esses dias, o marido de uma prima me perguntou, meio que pra puxar assunto na falta de nenhum, se eu ainda escutava Legião Urbana e se eu era fã do Renato Russo, o que respondi que sim e sim. Coincidentemente, estou separando as cerca de dez mil músicas e montando pastas temáticas e no momento estou reouvindo TODAS as músicas do Legião e do Renato. Confesso que esses dias têm sido nostálgicos.
Conheci Legião com cerca de treze anos ouvindo Faroeste Caboclo. Nunca tinha escutado uma música tão demorada, mas o enredo e os palavrões (novidades pra mim numa música em português) me atraíram e feliz foi o dia em que consegui cantar TODA a música sem errar. Se isso fosse uma prova de proficiência em legiãourbanologia, com catorze teria sido admitido com louvor. Após isso, ouvia direto e brigava com quem não gostasse. Aconteceu. E vinte anos, mais, se passaram. E aí?
Aí que, confirmando o que disse ao marido da minha prima, sim, ainda escuto Legião além dessa coletânea, mas, evidentemente, vejo o Legião com outros olhos, mesmo nostálgicos.
Primeiro – e sempre – é a visão messiânica, idolatrada que eu e os da minha geração sempre tivemos do velho Renato. Uma coisa é verdade no mito: Renato Russo foi um dos últimos artistas da música brasileira que tinha algo a dizer. Vinha da nossa adolescência a falta de uma mensagem, de uma letra sólida. Vivemos o tempo dos sertanejos apaixonados e abandonados e amores fracassados para começar a cair no axé bundológico. Renato tinha letras de amores fracassados também, mas tinha letras políticas. Claro, havia uma visão tanto adolescente, certa forma rasteira, que povoava capas de cadernos (minhas inclusive), mas era poesia, e poesia boa. Mesmo que não fosse tão boa assim e houvesse coisa melhor, mas sempre anterior e pouca coisa contemporânea.
Segundo, e isso é sempre bom que se frise, é algo que falta a muitos artistas hoje: CARISMA. Só as músicas do velho Renato não seriam o bastante se não houvesse o carisma para fazê-lo o tal mito messiânico que nos prendia a escutá-lo e, mais que isso, torcer por um show. Sabe-se que Renato Russo não era fã de apresentações ao vivo e suas turnês eram curtíssimas. Primeiro porque ele não gostava e, mais tarde, por conta da saúde debilitada pela doença que o levou. Talvez por isso, três discos lançados post mortem sejam de registros ao vivo. Da minha parte, uma das frustrações de adolescente foi não ter visto Renato ao vivo aqui em Prudente. Hoje lamento menos isso. Ouvindo as gravações de shows nessa coletânea rememoradora é fantástico ver como ele era adorado pelos seus fãs. Mas nota-se que faltava certo tato, o que é compensado com declamações, piadas e gagues que agradam a audiência, mas hoje não diz tanto.
De fato, o velho Renato Russo e o Legião já não fazem parte do meu cotidiano musical como fizeram um dia. Hoje dividem espaço com a velha MPB, alguma coisa de jazz, um sertanejo mais antigo, toques de sons regionais e bastante coisa do velho rock n’ roll. Mas se hoje sou musicalmente plural, muito devo ao próprio Renato e tantas influências. Talvez ainda escute Legião e Renato, mas de forma indireta. A resposta ao marido da minha prima foi a mais apropriada possível. 

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