quinta-feira, 15 de maio de 2014

O Ney está nu. Vista-se!

Se tem um artista de quem gosto, e muito, é o Ney Matogrosso. Como não gostar de um sujeito que, em plena Ditadura militar, surge com um visual andrógino, rebolativo e, antes de tudo, interpretando magistralmente canções e poesias? Seu aparecimento no meteórico Secos e Molhados sobreviveu à fogueira de vaidades que foi o grupo e perdurou com o talento do showman que era. A releitura de clássicos da MPB e de nomes graúdos como Cartola, Chico Buarque além da feliz busca de novos (e bons) compositores são muito maiores que seu propalado namoro com Cazuza. Outra coisa da qual sempre gostei no Ney é sua postura muito sóbria e honesta em relação a sua sexualidade. Ele mostra que, sim, você pode ser bissexual, homossexual, defender bandeiras sem necessariamente ser radical, extremista ou caricato. A luta que os grupos GLBTS encampam hoje, Ney já tomava, discretamente, há muitos anos. E tinha sucesso, mas também tinha inimigos e dissabores. Muito maior que isso, e sem se envolver com grandes corporações a ponto de vender a alma, ele está aí há mais de trinta anos e uma carreira vitoriosa.
Muita gente, no entanto, diz que, dentro da MPB, Ney é um nome menor. Não concordo. É certo que, diferente de seus contemporâneos Chico, Caetano, Milton, Ney não compôs uma linha. Não tem problema. Ney cantou composições desses grandes compositores magistralmente. A vida é assim. Alguns escrevem, outros cantam. Outros, como Caetano e Milton (concordemos, Chico Buarque não serve pra intérprete) fazem os dois. Mas Ney, como seus pares, também se destacou por ser um artista muito esclarecido e, ao seu modo, engajado. Como disse, ele defende bandeiras que mexem com tabus. Também sempre foi muito consciente em críticas contra os governos, contra a classe artística, mas sempre com comedimento. Diferente de um Caetano Veloso, por exemplo, não dava entrevistas pomposas e cheias de retóricas nem se metia a ser um grande entendedor de tudo. Entrevistas dele, como as de Chico, sempre foram poucas e muito bem postas. Da minha parte, sempre concordei com muitas coisas que ele falava, pois sempre via lucidez e conhecimento na sua fala. Até agora.
Deu que recentemente, em Portugal, onde foi fazer alguns shows e divulgar seu novo (e bom) disco Atento aos Sinais, durante uma entrevista, Ney resolveu soltar a boca em críticas pesadas contra o governo federal, os projetos sociais. Foi desmedido e nebulosamente preconceituoso. Deu a entender que muita coisa foi falada sem o menor conhecimento de causa. Tudo bem que o Bolsa Família mereça uma discussão mais atenciosa sobre sua razão de ser, mas tem critérios, e muito justos, para sua existência, por exemplo.
A impressão que ficou é que Ney falou tudo baseado no mais rasteiro senso-comum. Em memes que pipocam no Facebook criticando o governo federal sem ter a noção de que o Brasil tem três esferas de governo a quem cabem atos que não são feitos e que não é de Brasília que vêm muitos dos desmandos e muitas das falcatruas. Falou com a mesma verve que falam aqueles que têm mais ódio do PT por ele ser “comunista” e se esquecem de que corrupção e tudo que há de ruim na política vem dos tempos das caravelas. Enfim, foi uma entrevista em que o Ney Matogrosso não foi o Ney Matogrosso, foi mais um desinformado com tantos que vemos em nossas timelines ou falando bobagem em mesa de bar.
A entrevista, claro, não me faz deixar gostar do artista Ney Matogrosso, sobre quem acho que um filme sobre sua vida viria muito bem, mas me desapontou. Até vir outra entrevista do Ney, coisa rara, terei medo. Será o Ney que li durante tanto tempo ou esse, desgostoso, como muito de nós, com a atual situação do País, mas criticando o que não deve e nem a quem se deve. Essa nudez do velho Ney, sinceramente, nós seus fãs e admiradores de sua lucidez, dispensamos.

Bota na conta do Papa

O Papa é pop, o Papa é homem e o Papa tem paixões e gostos como qualquer um de nós. E esse Papa Francisco revelou a nós, pobres diabos apaixonados por essa coisa profana chamada futebol, que ele também gosta do riscado. Desde sua eleição ao Trono de Pedro, apareceu uma foto no, então, Jorge Bergoglio, com uma camisa do seu time do coração, o San Lorenzo de Almagro. Coisa de sul-americano. Talvez, mas terminou sendo mais simpático. A nós, sul-americanos. Talvez.
Seja como for, o esporte mais popular do planeta não parece fazer parte da história de seus antecessores. Isso porque prefiro pontuar aqueles a que vi desde que nasci. Qual, na Polônia, era o time de Karol Wojtila, sua Santidade João Paulo II? O bávaro Joseph Ratzinger, o Papa Emérito Bento XVI, teria vibrado com o título do alemão e também bávaro Bayern no campeonato nacional? Ou torce para algum outro? Perguntas difíceis para nós, que vemos esses chefes religiosos e de Estado na TV. Seus biógrafos podem ter a resposta, mas para buscá-la devemos ter por eles paixão parecida com a que temos pelos nossos times. É ver quem se habilita.
O tema me vem à tona uma vez que essas semanas, o glorioso San Lorenzo bateu o Grêmio nas oitavas de final da Libertadores da América e o Cruzeiro nas quartas. Ajudou a ceifar brasileiros do torneio. Lá do Vaticano, certamente alguém curtiu essa vitória. Sobre o San Lorenzo, vale dizer que o time está para a Argentina, guardada as proporções, ao o que é o Vasco no Brasil. Também que Almagro é o bairro de Buenos Aires onde foi fundado. Como todos os clubes argentinos, o San Lorenzo tem seus apelidos. No caso: El Ciclón, Los Cuervos e um que não deve agradar nada ao Papa: Los Santos Matadores. De qualquer forma, o San Lorenzo vem atravessando uma fase muito feliz. E coincidência ou não, essa fase tem melhorado desde a subida de Jorge Bergoglio ao Trono de Pedro. No ano passado, o San Lorenzo venceu o torneio Abertura do Argentino, que ocupa o segundo semestre do futebol de lá. Esse ano, o time classificou muito bem no grupo da Libertadores com certa dificuldade e, depois, uma classificação heroica contra o Grêmio nos pênaltis. Contra o Cruzeiro, o Ciclón teve uma vitória na Argentina e um empate jogando o fino em Minas Gerais. Coincidência?
Na Argentina, o San Lorenzo equivale, guardadas todas as proporções, ao próprio Cruzeiro ou ao Atlético, um time que figura entre os grandes e tradicionais do País, mas de torcida mais restrita e regional. Se entendermos que o futebol argentino se resume, quase todo a Buenos Aires e algumas cidades ao redor. Poucos times argentinos são de fora desse círculo. No entanto, o momento do San Lorenzo é excepcional. A brincadeira que se faz sobre ajuda divina e uma mãozinha do Papa é engraçada, mas descredita o bom trabalho feito pelo clube. É bem verdade que a Libertadores desse ano foi cruel com equipes tradicionais como com os times brasileiros. Além de habitueés como Boca Jrs, River Plate, Colo Colo ou Olimpia, que nem se classificaram, os uruguaios Peñarol e Nacional e o Universidad de Chile ficaram pelo caminho. O time do Jorge Bergoglio, que não tem um título continental, não tem nada a ver com isso e vai trilhando, com a ajuda de Deus, a torcida do Papa e muita competência seu caminho à final. Aparentemente, as fases mais difíceis e os adversários mais complicados foram superados, mas ainda tem muita surpresa por vir. Lá do Vaticano, o Papa Francisco tem o que comemorar.