quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Costa pro Brasil. E daí?

E eis que o grande craque Diego Costa escolhe jogar pela Espanha e fecha o vidro para a seleção brasileira. Recusa o “sonho de milhões” do Felipão para jogar por uma mera campeã mundial, a última, a que reina absoluta na Europa há oito bons anos. Trocou a feijoada pela paella; a caipirinha pela sangria.
Traidor da Pátria? Fez bobagem?
Aos fatos: Diego Costa é um rapaz que veio de Sergipe para jogar a 500 reais no Barcelona, mas o Barcelona Capela, da Zona Sul de São Paulo, time que está licenciado de competições profissionais. Quando volta? Não se sabe. Sabe-se, apenas, que da Zona Sul foi pra Portugal e perambulou pela Península Ibérica até ser “descoberto” no Atlético de Madrid, ser artilheiro num dos campeonatos mais suntuosos (mas não um dos mais disputados) do mundo e uma convocação para a Seleção Brasileira. Hoje ganha muito mais que 500 reais e o semiprofissionalismo é coisa do passado. Hoje é celebridade disputada por duas grandes camisas do futebol. Escolheu uma.
A raiva de Felipão, sua indignação na base da patriotada é legítima. Hoje temos jogador brasileiro atuando nos mais insuspeitos centros. Esses dias, soube de um brasileiro jogando na Mongólia. Outro atua em Mianmar. Centros em que o dinheiro corre solto vêm se tornando mecas. A China leva um ou outro bom jogador da série A. A Ucrânia levou a revelação Bernard, do Atlético-MG. A Rússia levou o promissor Vitinho, do Botafogo. A peso de ouro. Países com menos ou sem nenhuma tradição bem como clubes de centros destacados, mas sem o cartaz de um Barcelona, procuram nas várzeas, nas segundas, terceiras ou quartas (caso do citado Barcelona Capela) divisões. Se estourarem por lá ou vão pra clubes e centros maiores ou se naturalizam e jogam naquelas seleções. Com Diego Costa aconteceu os dois.
Mas quem é Diego Costa? Um bom jogador, sem dúvida. Não um craque. Um atacante oportunista e com faro de gol. Quantos como ele o Brasil tem cheio de nome? Quantos como ele jogam no Brasil? Seria Diego Costa um Walter? Provavelmente. Um Hulk? Certamente. Com tanta gente gabaritada e já testada e aprovada, caberia, tão em cima da Copa, testar mais um? Será que após uma Copa das Confederações, mesmo ganha sobre uma desinteressada Espanha, há tantas dúvidas a serem respondidas pelo técnico? Quantas incertezas terá ainda o Felipão após perder o Diego Costa para a Espanha? Será que ele tem outro coelho na cartola?
Pergunto porque Felipão é dado a surpresas. Quando dirigia a seleção portuguesa armou uma grande rusga com imprensa e jogadores de lá defendendo a naturalização de um desconhecido Deco, brasileiro, que há muito brilhava em Portugal. Deco, como Diego Costa, recusou-se ao “sonho de milhões” exaltado por Felipão. Com uma sutil diferença: estimulado pelo próprio Felipão. Por acaso, num jogo contra o Brasil, Deco fez o gol da vitória portuguesa e calou a boca dos opositores. Felipão estava certo. Mas e o que fazer com o patriotismo que Felipão tanto defendeu ao atacar Diego Costa?

No fim das contas, nem o Brasil e – penso – nem a Espanha precisam desesperadamente de um Diego Costa para compor seus selecionados. Lá como cá, principalmente, há grandes jogadores nativos com capacidade de levarem longe suas seleções. Se temos Fred, Hulk, Jô e Leandro Damião, pra ficar nos que já foram “testados”, a Espanha ainda conta com Villa, Pedro, Torres e Navas. Há uma geração interessante nas “canteras” espanholas. Por outro lado, Diego Costa será, na Espanha a peça pronta para qualquer problema. Não acredito que seja o que foi o Deco pra Portugal ou o belgo-brasileiro Oliveira para a Bélgica. Não pode ter esse protagonismo todo. No Brasil, menos. Seria um Afonso, você se lembra dele? O Dunga, que o ‘garimpou” também não. Nem pra Copa ele foi. Em outras circunstâncias, creio, Felipão também não o levaria. E ninguém, ele muito menos,  falaria nada. 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

PS 4 a 4 paus?

Deu que o PlayStation 4 vai sair e vai custar perto da bagatela de 4000 reais. De fato, o preço do brinquedo é abusivo, é irreal, é proibitivo. Mas ver o bafafá que a classe média anda fazendo em cima disso nas redes sociais (no Facebook, principalmente) chega a ser cômico.
Eu não sou muito ligado em vídeogames. Minha vida gamemaníaca parou no Mega Drive e eu pagaria – se tivesse – quatro mil reais em um. Depois dele vieram os Segas 64 para a morte da Sega e a sobrevida da Nintendo (ah, os tempos em que os maníacos discutiam sobre o melhor)., o Xbox, os PS, que até joguei, mas por mais tecnologia e gráficos e possibilidades, não me seduziu.
Hoje um videogame chega a esses preços estratosféricos e causa revolta nos nerds, mas por que o preço? Impostos?
Claro que um produto, pela novidade que traz e pela grife que ostenta, vai aparecer no mercado com um preço alto. É a regra capitalista contra a qual se tenta lutar, mas não se consegue. É a mesma regra que os mesmos nerds defendem com unhas e dentes nas mesmas redes sociais. Os mesmos nerds que execram o socialismo sem saber o que é, mas, capitalistas, não venderiam um produto que, por acaso, criassem, a 400 dólares apenas. E são os que reclamam de impostos. Jogam a culpa do seu sonho de consumo máximo ser supertaxado no país. Oras, todo país deve ter impostos para a manutenção do Estado que é, por mínimo ou máximo que seja. E todo imposto deve ser proporcional ao valor e à necessidade do produto. Não se cobram alíquotas proibitivas de itens alimentares. Por outro lado, os tais “supérfluos” têm uma taxa mais alta já que não são indispensáveis. Ninguém precisa de cerveja, cigarro ou um videogame pra viver ou subsistir. E aí, uma taxação alta pode ser considerada justa. Para miséria dos nerds.
A verdade é que eu não sei, em minha ignorância em tecnologia, no que o PS4, tão esperado, propalado e endeusado, pode ser melhor que o PS3. Melhores gráficos? Mas o outro tem gráficos já excelentes, que beiram ou superam a realidade. Mais funções? Ele já conecta à Internet, é DVD, toca CDs (quem usa CD hoje?). O que o 4 faria? Café? Traria embutido canais de TV fechada?

No fim das contas, fala aqui um sujeito que não se deixou seduzir pela tecnologia de ponta, mas inútil e meramente recreativa. Claro que eu faço coro às vozes que acham um absurdo pagar quatro paus num videogame, mas me separo dessa turma pelos motivos da crítica. Não é culpa da Dilma, não é culpa dos impostos. Pode ser culpa da empresa que fabrica e bate o martelo num preço maluco pra ter lucro estrondoso. Pode ser culpa do comerciante, que quer tirar a fatia dele nesse bolo. Mas eles todos são tão gananciosos quanto seria qualquer um que critica o preço. Porém, esses, por fazerem parte do sistema capitalista e meritocrático que os nerds tanto apreciam sem conhecer direito ou pouco se lixando para os efeitos colaterais, esses não ganham uma vaia. Merecem pagar quatro mil reais sangrados sabe de onde para ter algo a ser superado daqui algum tempo. Enquanto isso, continuo querendo um Mega Drive.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Cuidado, pode ter um comentador perto de você. Proteja-se.

Aposto que o Leonardo Sakamoto já falou sobre isso, só que eu, assíduo em seu blogue, não li se ele escreveu. Mas cada vez que entro na Internet e pego qualquer notícia pra ler, quando termino, por uma curiosidade mórbida, me meto a ler os COMENTÁRIOS. E me arrependo amargamente disso.

Diferente do Saka, não vou me imiscuir pelo lado político da coisa. Opinião política, já disse aqui, cada um tem a sua, o que não explica nem justifica ignorância, preconceito nem ódio extremista. Para ilustrar esse post levantarei uma postagem que a UOL fez semana passada sobre uma (excelente) entrevista com o narrador Luciano do Valle na ESPN. Luciano é um cara que, como narrador, eu adoro. Como visionário de esportes, eu o aplaudo de pé, mas tenho minhas reservas enquanto pessoa e empresário. Basta que eu não o convide para vir a minha casa nem feche acordo com ele. Deixo alguns comentários sobre a reportagem  acerca da entrevista para serem lidos:
(clique e amplie pra ler)
Ok, Luciano não é mais aquele. Como telespectador, HOJE, tenho muitas críticas a suas narrações, nas quais volta e meia ele se perde, erra nomes pra caramba, mas nada que tire seu brilho anterior. Nunca um grito de gol foi mais explosivo, sóbrio e emocionante como o do Luciano (e aqui vai subjetivismo. Muito melhor que os “Olha o que ele fez! Olha o que ele fez!” ou “Olha o gol! Olha o gol!” do seu concorrente de “lá”, como se diz na Band). No entanto, a idade chega e é hora de pendurar o microfone. Mas ainda prefiro o Luciano com todos os lapsos e apesar do Neto (que para muitos comentadores – diferente de comentarista que presume-se, sabe do que fala – parecem ser a mesma pessoa).
Quando a coisa cai pro lado da política, o negócio fica pior. É um festival de preconceito, ignorância e arrogância. Gente que, a ver pelo português, sequer completou o primário fala sobre política, economia, sociologia, geopolítica com ares de doutores no assunto faltando argumento e sobrando baixo calão. Espertamente, blogues de humor como o Classe Média Sofre e Tudo Culpa dos PeTralhas pescam o que há de melhor nessa barafunda e divulgam fazendo rir com coisas que muita gente leva a sério. Tira-se o lado engraçado e fica o preocupante.
Preocupante porque uma pessoa dessas, que acha que petista devia ser morto, que defende a volta da ditadura Militar, com a tortura inclusive ou que prega a submissão da mulher e usa “nicknames” e ‘avatares” escondendo a identidade real, pode estar atrás de você na fila do banco ou ao seu lado numa lanchonete ou no ponto de ônibus. Aquele sujeito que você acha ser tão bonzinho, na Internet, é um defensor de toda sorte de violência contra aqueles que não concordam com ele. É um oculto que tendo direito a voz num fórum virtual deixaria Hitler, Stallin e Pinochet no chinelo caso fosse lhe dado uma nesga de poder.
Como combater isso? Pessoalmente, se alguma reportagem na Net ou em redes sociais me agrada e me desperta opinião, eu a darei. Quantas vezes ao elogiar A ou B, veio um Z me chamando de comunista, de gay, de cretino (já que debater a ideia é muito complicado porque precisa de argumento, ataca-se quem a deu)? Quando acontece isso, ou dou o assunto por encerrado ou sou sarcástico ou quando a coisa desce a níveis de crosta, vou até lá e respondo na mesma moeda. Mas a cada dia, a Internet vem perdendo encanto pra mim. O melhor é ignorar sempre. Uma pessoa dessas é anônima na fila do banco e jamais será corajosa o bastante longe de um computador. Caso encontre um gay de maus bofes e macho o bastante pra lhe acertar um soco, por exemplo, a homofobia dele é a primeira a fugir. 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O lobo perde o pelo, mas não perde o vício. Ou perde?

Um cara de quem sempre fui fã musicalmente e, por algum tempo, como pessoa foi o Lobão. Impossível falar do rock brasileiro sem ele e quem conhecer qualquer coisa do Vímana, que juntava dentre outros Lulu Santos, Ritchie e o próprio Lobão sabe o que estou falando. Depois de um ostracismo, Lobão voltou com uma inovação – ou diria uma oficialização – sensacional que foi o CD independente. Seu disco A Vida é Doce, de 1999, era vendido em revistas e numerado além de ter algumas faixas disponíveis em seu site oficial. Depois dele, muitos artistas foram por esse caminho até o CD ser um formato quase inútil.
Essa inovação tem explicação. Lobão andava esquecido, vilanizado pelas drogas e prisão, sem gravadora e com discos pífios; marginalizado por rádios e TVs (seria ele o precursor dos shows ao modo SESC-SESI, gratuitos?), mas com coisa boa pra mostrar além do seu boom dos anos 1980. Reclamão e polêmico ele é desde que existe e esse era até um dos seus charmes (já brincava Gabriel O Pensador em Festa da Música “A festa tá correndo bem/O Lobão até agora não falou mal de ninguém”). Seja como for, a novidade levou o lobo aos holofotes. Shows, entrevistas, divulgação e o Acústico MTV. Estranho para um ferrenho crítico da emissora.
O que veio depois do disco (e da contratação pela emissora, Lobão passou a apresentar na sua grande desafeta) foi um Lobão como sempre polêmico, mas pela primeira vez desmedido, atirando pra tudo que é lado e com um posicionamento extremamente reacionário, quase despótico.
Não vou esmiuçar o posicionamento político do Lobão, até porque a Cynara Menezes fez isso excelentemente nesse artigo em seu blogue e porque posição política cada um tem a sua. A minha bate frontalmente com a dele como com a de muitos amigos, mas acho que existem limites. E Lobão ultrapassou todos eles em entrevistas exaltando a Ditadura Militar, pregando outra, falando bobagens e mais bobagens que só encontram eco em facebobos de Direita, gente que acha que o Estado deve ser abolido, que tudo que leva social, até traje social, é coisa de comunista. Enfim, efeitos colaterais de uma democracia.
Hoje Lobão, como músico, faz shows (a maioria pelo SESC-SESI, sócios do Estado cuja existência ele prega o fim) e arrumou uma vaga como articulista da revista Veja. Pessoalmente, acho legal, afinal como disse um amigo, é ótimo alguém ter uma crônica que eu não lerei numa revista que eu já não leio. O que me fez escrever essas linhas foi a grosseria com a qual ele tratou o pessoal do Pânico nesse domingo.

Ok, o Pânico é o tipo de programa que ou se ama ou se odeia, extrapola, exagera, às vezes recorre ao mau gosto, eu sei. E tem todo o direito, o Lobão, de não gostar como eu tenho o direito de não perder todo domingo. Agora me surpreende uma pessoa ser estúpido com alguém.
Opinião, Lobão, a gente dá e precisa estar preparado para dar e para ouvir. Infelizmente, mais do que o cara polêmico de outrora, ele virou um chato mal educado. Musicalmente, Lobão está sumido, não faz nada que lembre seu auge há tempos. Como formador de opinião está difícil de ser levado a sério. Ainda restam os facebobos.