E eis que o grande craque Diego Costa escolhe jogar pela
Espanha e fecha o vidro para a seleção brasileira. Recusa o “sonho de milhões”
do Felipão para jogar por uma mera campeã mundial, a última, a que reina
absoluta na Europa há oito bons anos. Trocou a feijoada pela paella; a
caipirinha pela sangria.
Traidor da Pátria? Fez bobagem?
Aos fatos: Diego Costa é um rapaz que veio de Sergipe para
jogar a 500 reais no Barcelona, mas o Barcelona Capela, da Zona Sul de São
Paulo, time que está licenciado de competições profissionais. Quando volta? Não
se sabe. Sabe-se, apenas, que da Zona Sul foi pra Portugal e perambulou pela
Península Ibérica até ser “descoberto” no Atlético de Madrid, ser artilheiro
num dos campeonatos mais suntuosos (mas não um dos mais disputados) do mundo e
uma convocação para a Seleção Brasileira. Hoje ganha muito mais que 500 reais e
o semiprofissionalismo é coisa do passado. Hoje é celebridade disputada por
duas grandes camisas do futebol. Escolheu uma.
A raiva de Felipão, sua indignação na base da patriotada é
legítima. Hoje temos jogador brasileiro atuando nos mais insuspeitos centros. Esses
dias, soube de um brasileiro jogando na Mongólia. Outro atua em Mianmar.
Centros em que o dinheiro corre solto vêm se tornando mecas. A China leva um ou
outro bom jogador da série A. A Ucrânia levou a revelação Bernard, do
Atlético-MG. A Rússia levou o promissor Vitinho, do Botafogo. A peso de ouro.
Países com menos ou sem nenhuma tradição bem como clubes de centros destacados,
mas sem o cartaz de um Barcelona, procuram nas várzeas, nas segundas, terceiras
ou quartas (caso do citado Barcelona Capela) divisões. Se estourarem por lá ou
vão pra clubes e centros maiores ou se naturalizam e jogam naquelas seleções.
Com Diego Costa aconteceu os dois.
Mas quem é Diego Costa? Um bom jogador, sem dúvida. Não um
craque. Um atacante oportunista e com faro de gol. Quantos como ele o Brasil
tem cheio de nome? Quantos como ele jogam no Brasil? Seria Diego Costa um
Walter? Provavelmente. Um Hulk? Certamente. Com tanta gente gabaritada e já
testada e aprovada, caberia, tão em cima da Copa, testar mais um? Será que após
uma Copa das Confederações, mesmo ganha sobre uma desinteressada Espanha, há
tantas dúvidas a serem respondidas pelo técnico? Quantas incertezas terá ainda
o Felipão após perder o Diego Costa para a Espanha? Será que ele tem outro
coelho na cartola?
Pergunto porque Felipão é dado a surpresas. Quando dirigia a
seleção portuguesa armou uma grande rusga com imprensa e jogadores de lá
defendendo a naturalização de um desconhecido Deco, brasileiro, que há muito
brilhava em Portugal. Deco, como Diego Costa, recusou-se ao “sonho de milhões”
exaltado por Felipão. Com uma sutil diferença: estimulado pelo próprio Felipão.
Por acaso, num jogo contra o Brasil, Deco fez o gol da vitória portuguesa e
calou a boca dos opositores. Felipão estava certo. Mas e o que fazer com o
patriotismo que Felipão tanto defendeu ao atacar Diego Costa?
No fim das contas, nem o Brasil e – penso – nem a Espanha
precisam desesperadamente de um Diego Costa para compor seus selecionados. Lá
como cá, principalmente, há grandes jogadores nativos com capacidade de levarem
longe suas seleções. Se temos Fred, Hulk, Jô e Leandro Damião, pra ficar nos
que já foram “testados”, a Espanha ainda conta com Villa, Pedro, Torres e
Navas. Há uma geração interessante nas “canteras” espanholas. Por outro lado,
Diego Costa será, na Espanha a peça pronta para qualquer problema. Não acredito
que seja o que foi o Deco pra Portugal ou o belgo-brasileiro Oliveira para a
Bélgica. Não pode ter esse protagonismo todo. No Brasil, menos. Seria um
Afonso, você se lembra dele? O Dunga, que o ‘garimpou” também não. Nem pra Copa
ele foi. Em outras circunstâncias, creio, Felipão também não o levaria. E
ninguém, ele muito menos, falaria nada.


