domingo, 3 de agosto de 2014

Sobre Fausto Fanti e algumas identificações

Essa semana faleceu Fausto Fanti, humorista da trupe Hermes e Renato. Perda lamentável para o humor mesmo sem o reconhecimento justo tanto para a pessoa quanto para o grupo. O fato de fazer maior sucesso em rede fechada de TV (ou de um canal com pouca visibilidade e direcionado a um público específico, que era a MTV) e ter muita coisa “censurada” ao ir para um canal maior contribuiu para o destaque aquém do merecido.
O humor do Hermes e Renato se baseava em esquetes que fugiam do politicamente correto imposto de humor escrachado que misturava tons de cinema nacional dos anos 70 (palavrões a rodo e sem razão de ser) e uma pitada de Nelson Rodrigues em seus diálogos. Acresce-se a isso uma produção, em seu princípio, amadora, tosca e que foi “melhorada” depois sem perder a essência da simplicidade até porque já ficou de marca registrada.
Algo a saber sobre o Hermes e Renato é sua origem. Trata-se de um grupo de cinco amigos de Petrópolis que, no final de sua adolescência, no começo dos anos 2000, gravava vídeos com esquetes num “faça-você-mesmo” puro e sem qualquer vergonha do ridículo. Com alguns vídeos gravados, os amigos tiveram a coragem (ou falta de vergonha) de mandá-los para a MTV, que passava vídeos caseiros durante os intervalos de sua programação. O produto agradou e a MTV os contratou trazendo o grupo pra São Paulo, alugando uma casa para eles morarem. O resto foi história e ela terminou tristemente nesta quinta-feira com a morte de um dos integrantes. Aparentemente, um suicídio. Da minha parte, grande fã dos programas do Hermes e Renato e que acompanha o grupo desde seu início, o lamento é maior. Primeiro porque eu declaradamente gostava dos caras. Segundo porque Fausto tinha a minha idade, 35 anos e o grupo oscilava nessa faixa, a mesma minha e dos meus amigos. Éramos adolescentes curtindo adolescentes na TV.
Quando éramos mais novos, eu, meus amigos e os próprios rapazes do Hermes e Renato, eu e meus amigos tínhamos uma brincadeira em família aos fins de ano. Escolhíamos fatos acontecidos durante o ano entre os mais inusitados, engraçados, ridículos e dávamos o Prêmio M. A melhor parte dessas “premiações” era justamente as filmagens das “reconstituições” dos episódios premiados. Havia muita influência do Hermes e Renato nessa brincadeira, sem dúvida. Também havia, na nossa turma, o hábito de fazer vídeos antes dos tais Prêmios M. Coisas bobas, paródias de programas famosos à época, gracinhas adolescentes. O teor era mais ou menos o mesmo do que fez o Hermes e Renato famoso depois. Decididamente havia muito deles em nós mesmo antes deles “acontecerem”.
Hoje, nós, eu e meus amigos, estamos mais velhos e mais maduros. Quase todos somos pais, como Fausto que deixou uma filha. Os Prêmios M, com o passar do tempo, foram se tornando cansativos devido à obrigação de “sempre fazer”. Pra nós, a brincadeira perdeu a graça quando virou compromisso. Paramos. Eles continuaram por muitos anos depois. A brincadeira rendeu dinheiro e virou profissão. Frutificou sucesso, ainda que restrito. Para nós, eles continuaram sendo engraçados. Para mim, mais que engraçados, eles são uma referência e um exemplo de como ter sucesso fazendo coisas divertidas. Um dos meus amigos diz que a grande diferença entre nós e eles foi a coragem em mandar os vídeos para a MTV. E ter uma “perucoteca” mais farta. Parando pra pensar, para Fausto, chegou uma hora que a brincadeira deixou de ser divertida também. Mas a forma que com que ele resolveu parar com ela foi a mais “Joselito
possível: Totalmente sem noção. E, diferente do personagem, sem graça nenhuma. Descanse em paz.

domingo, 13 de julho de 2014

A vergonha da evolução

Copa de 2006, o Brasil vai pra Alemanha com remanescentes do pentacampeonato no torneio anterior. Ronaldo está mais velho e entrou na fase descendente de sua gloriosa carreira. Cafu e Roberto Carlos, fundamentais naquele time, também estão mais velhos. Kaká, reserva naquele episódio, é o nome da equipe. Ronaldinho Gaúcho, que nunca jogou pela seleção a bola do Barcelona, leva a esperança de que desencante. O time passa sem sustos e sem um futebol vistoso pela primeira fase, bate a boa e inexperiente seleção de Gana nas oitavas de final. Diante da França, equipe grande, nas quartas de final, cai. Zidane joga o fino da bola e leva seu país ao vice-campeonato.
Copa de 2010, a seleção de 2006 aposenta os medalhões de 2002. O time tem como técnico Dunga, capitão do tetra em 1994, mas que nunca treinou um time antes. Contestado e às turras com a Imprensa, Dunga mostra serviço e um futebol feio ainda que tenha jogadores habilidosos. Kaká joga no sacrifício. O Brasil passa por um grupo relativamente fácil com Coreia do Norte e Costa do Marfim, mas empata com a segunda força da chave, Portugal. Oitavas de final tranquilas contra o Chile e quartas de final contra a tradicional Holanda. Eliminação com falha do goleiro Júlio César. Outra vez o Brasil é eliminado pela futura vice-campeã e outra vez fica entre os oito melhores do torneio.
Copa de 2014, o Brasil joga em casa com uma seleção de menos qualidade que as das duas Copas anteriores. O técnico é o do pentacampeonato, mas o nível da equipe é muito inferior. Faz uma primeira fase que não convence, não agrada, mas é o bastante pra ser o primeiro de um grupo cascudo. Nas oitavas de final joga contra um Chile valente, vence a peleja nos pênaltis. Nas quartas de final tem uma relativa moleza: A Colômbia fez uma grande Copa, mas não tem o calo da vitória. O Brasil joga uma partida feia, seus atacantes não funcionam, seu meio campo não existe, mas há muita raça. Os zagueiros decidem. O Brasil vence e se classifica para as semifinais, o que não acontecia desde 2002. Agora estamos entre os quatro melhores, um passo além. A semifinal é contra a Alemanha e a Seleção toma um histórico e humilhante 7-1, o que credencia para a consolável decisão de terceiro lugar. Nova derrota para a Holanda. O Brasil, em casa, está entre os quatro melhores do torneio. A frente de campeões tradicionais como Itália Uruguai, França e Inglaterra e muito a frente da última campeã, a Espanha.
E estamos todos tristes, envergonhados e humilhados.
Somos o quarto melhor time do mundo entre os trinta e dois melhores e quase duzentas seleções chanceladas pela FIFA. Seleções que nunca disputaram uma Copa e dificilmente a disputarão porque perder de sete, pra elas, é cotidiano.
Estamos, frise-se, melhores que seleções tradicionais, campeãs. A segunda seleção em títulos, a Itália, foi eliminada na primeira fase da Copa. Igual destino da atual campeã e do futebol mais vistoso dos últimos seis anos. Mas o futebol, como tudo, muda. A imbatível Espanha está na tábua ao lado de Honduras, de Irã.
Às cacetadas e contra qualquer perspectiva séria e sem paixão, numa comparação fria, evoluímos. De um grupo de oito, agora estamos em quarto. E mesmo assim, essa seleção toma pedrada de todo lado.
Pedradas justas, pois se a eliminação para uma Alemanha, como as anteriores, é aceitável, a derrota de sete não. A distância entre os dois times na Copa foi flagrante, mas o jogo a distorceu. O evento escalonou de forma exagerada. Haveria uma derrota, mas não essa. Não dessa forma. O resultado mascarou a evolução, o degrau acima. Queríamos disputar sete jogos na Copa e disputamos. Não o que se pretendia, mas a decisão de terceiro lugar só é acessível a semifinalistas. Só a efeito de comparação: A Itália, campeã em 2006, amargou duas eliminações seguidas na primeira fase. Mesmo longe do penta, fizemos melhor que os italianos em duas ocasiões. Um campeão involuiu, e não fomos nós.
É preciso acabar definitivamente com esse estigma de “pentacampeão”. Somos, e se somos foi por mérito nosso. Foi porque, num período de doze anos, de 1858 a 1970, tivemos esquadrões. E é sempre bom lembrar que nesse período de franca evolução, em 1966, bicampeões, com Pelé, com Garrincha nos seus últimos instantes, fomos eliminados numa primeira fase. Sem perder de sete, mas igualmente vexatório.
Depois a Fênix renasceu e em 1970 veio o tri incontestável. Viramos, de vez o país do futebol. Outro títulos vieram, de tri viramos penta. Só que faz tempo. Doze anos. Na Rússia serão dezesseis. Temos cinco taças com alguma poeira. Não representa o que é o futebol brasileiro hoje. Não serve de parâmetro. O título era provável, nunca foi nosso. Nunca tivemos, como disse a Comissão Técnica, uma mão na taça. De 2002 pra cá paramos na França, na Holanda até subirmos um degrau para pararmos (e sermos jogados do alto?) na Alemanha. Somos penta, mas não somos campeões. O Brasil penta, assim como o Santos de Pelé, o Flamengo de Zico e, até, o Barcelona do tiki-taka, não existe mais. Só que diferente deles – e às cacetadas – evoluímos. Há a perspectiva de um passo maior, apesar dos 7-1 que nos impede de ver isso.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Um novo Barbosa e a brasilização do futebol alemão

Uma das perguntas feitas em mesas-redondas após a acachapante derrota de 7-1 ontem para a Alemanha foi: O que foi pior? Perder a final de 1950 para o Uruguai ou a semifinal de 2014? Parece uma pergunta difícil. Eu, pelo menos, não vivi 1950 e, penso, qualquer pessoa com menos de 74 anos, 10 à época, suficiente para uma consideração razoável sore o evento, também não. Sem a comparação, apenas na base de depoimentos, uma análise fica comprometida. O que temos daquele dia é que o Brasil era mais time, o Uruguai foi um time valente e jogou pelos dois gols e que, em um deles, Barbosa, goleiro do Vasco, foi o culpado. Essa condenação o perseguiu pela vida toda ainda que, conta-se, fosse um ótimo goleiro, o melhor da história do Vasco segundo muitos que o viram jogar.

Desde então, tem feito parte da cultura do brasileiro achar um culpado para uma derrota. Compreende-se ao entender que o futebol é exageradamente passional que, num grupo, alguém tenha que pagar o pato. Ainda mais em grupos que segundo seus seguidores, haja o que houver, é o melhor do mundo, o pentacampeão, o inigualável. Assim temos um Toninho Cerezo em 1982 errando passe, um Zico em 1986 perdendo pênalti, um Júlio César em 2010 falhando num gol. Quando não é um atleta, é o contexto. Em 1998, acusou-se uma suposta falcatrua a favorecer a França. A Copa estaria comprada. Ninguém pensou que a responsabilidade e a cobrança de uma decisão em cima de um menino de 21 anos poderiam mexer com o emocional dele a ponto de um tilt. Esse tilt aconteceu, a tal convulsão é fato e isso afetou o grupo, que já não era um primor e tinha um técnico ultrapassado. A derrota por 3-0, a pior até então calou uma torcida e mil barbosas apareceram. O maior, claro, se chamava FIFA.
Em 2002 a redenção. O título em cima da Alemanha. Alguns erros de arbitragem favoreceram o Brasil no caminho, mas foram “normais”, afinal “todo juiz erra”. A seleção, diferente de 1998, estava renovada, Ronaldo estava amadurecido e já acontecia como craque, Rivaldo, discreto, era craque também. A Alemanha tinha um time desacreditado e, contra todas as expectativas chegou à final e perdeu. Conta-se que o técnico Rudi Völler, ao comparar as duas escalações, admitiu que não tinha como vencer aquele Brasil. Aceitou o vice campeonato resignado mesmo que tivesse um bom time e craques envelhecidos. Mas aquele futebol alemão estava com os dias contados.
A Alemanha resolveu mexer em tudo. O futebol tático e físico baseado na raça deu lugar à técnica. Os times alemães foram incentivados a desenvolver suas bases, a mentalidade alemã mudou. O time tinha a obrigação de levar o título jogando em casa em 2006. Para capitanear essa nova geração, um velho craque e ídolo dessa molecada: Juergen Klinsmann assume a seleção, causa polêmica ao comandar a Alemanha morando nos Estados Unidos, desvencilha-se disso. Resultado com um time de garotos e alguns veteranos pra dar a famosa liga: terceiro lugar. Copa de 2010, muda o técnico, aqueles meninos que fizeram bonito na Copa anterior ficam, alguns novos aparecem. A Alemanha ariana dá lugar a descendentes turcos, tunisianos, albaneses e africanos, mas alemães, e alguns naturalizados. Uma Alemanha à brasileira no físico, miscigenada, e no futebol, técnica e envolvente. Outro terceiro lugar, mas após uma Copa muito melhor e uma diferença: Nesse interregno de três Copas em oito anos, a Alemanha não escolheu um Barbosa. Não foi culpa do Kahn, do Klinsmann, do Loew, da bola... A culpa, se é que pode ser chamada assim, era do estilo. Mudemos o estilo. Mudemos a mentalidade. A Alemanha mudou e só fez ser a seleção mais regular nas últimas quatro Copas, onde figurou, pelo menos, na semifinal.
Quando perguntados sobre o que faltava ao futebol alemão, dirigentes e treinadores respeitáveis são unânimes: Alegria. Juergen Klopp, técnico do Borussia Dortmund disse que “os alemães não sabiam que poderiam ser tão despreocupados, felizes e alegres, exatamente como fazem os brasileiros”. Não à toa, seu time é um dos melhores do País e da Europa. Claro que só alegria não garante sucesso. Seriedade também. A Alemanha reformulou seu campeonato, passou a apostar mais no material de casa, tornou a Bundesliga numa das mais fortes, competitivas e rentáveis da Europa e a Federação aproveitou essa onda montando boas seleções. Com alemães.

A seriedade alemã veio pra nossa Copa. A Alemanha treina séria e focada e aproveita o país. Vai à praia, curte a Bahia, é simpática e em toda sua estadia teve um único dia de folga. Seriedade alemã com simpatia brasileira. Pragmatismo alemão com técnica brasileira. Talvez seja o momento de se inspirar na Alemanha não como o time, mas como o todo. Campeonato, federação, estrutura. E nesse reflexo reencontrar o que sempre tivemos: Alegria agasalhada pela seriedade. Quem sabe assim, o fantasma de 2014 assombre menos,  o de 1950 seja esquecido e até o injustiçado Barbosa descanse em paz. 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O Ney está nu. Vista-se!

Se tem um artista de quem gosto, e muito, é o Ney Matogrosso. Como não gostar de um sujeito que, em plena Ditadura militar, surge com um visual andrógino, rebolativo e, antes de tudo, interpretando magistralmente canções e poesias? Seu aparecimento no meteórico Secos e Molhados sobreviveu à fogueira de vaidades que foi o grupo e perdurou com o talento do showman que era. A releitura de clássicos da MPB e de nomes graúdos como Cartola, Chico Buarque além da feliz busca de novos (e bons) compositores são muito maiores que seu propalado namoro com Cazuza. Outra coisa da qual sempre gostei no Ney é sua postura muito sóbria e honesta em relação a sua sexualidade. Ele mostra que, sim, você pode ser bissexual, homossexual, defender bandeiras sem necessariamente ser radical, extremista ou caricato. A luta que os grupos GLBTS encampam hoje, Ney já tomava, discretamente, há muitos anos. E tinha sucesso, mas também tinha inimigos e dissabores. Muito maior que isso, e sem se envolver com grandes corporações a ponto de vender a alma, ele está aí há mais de trinta anos e uma carreira vitoriosa.
Muita gente, no entanto, diz que, dentro da MPB, Ney é um nome menor. Não concordo. É certo que, diferente de seus contemporâneos Chico, Caetano, Milton, Ney não compôs uma linha. Não tem problema. Ney cantou composições desses grandes compositores magistralmente. A vida é assim. Alguns escrevem, outros cantam. Outros, como Caetano e Milton (concordemos, Chico Buarque não serve pra intérprete) fazem os dois. Mas Ney, como seus pares, também se destacou por ser um artista muito esclarecido e, ao seu modo, engajado. Como disse, ele defende bandeiras que mexem com tabus. Também sempre foi muito consciente em críticas contra os governos, contra a classe artística, mas sempre com comedimento. Diferente de um Caetano Veloso, por exemplo, não dava entrevistas pomposas e cheias de retóricas nem se metia a ser um grande entendedor de tudo. Entrevistas dele, como as de Chico, sempre foram poucas e muito bem postas. Da minha parte, sempre concordei com muitas coisas que ele falava, pois sempre via lucidez e conhecimento na sua fala. Até agora.
Deu que recentemente, em Portugal, onde foi fazer alguns shows e divulgar seu novo (e bom) disco Atento aos Sinais, durante uma entrevista, Ney resolveu soltar a boca em críticas pesadas contra o governo federal, os projetos sociais. Foi desmedido e nebulosamente preconceituoso. Deu a entender que muita coisa foi falada sem o menor conhecimento de causa. Tudo bem que o Bolsa Família mereça uma discussão mais atenciosa sobre sua razão de ser, mas tem critérios, e muito justos, para sua existência, por exemplo.
A impressão que ficou é que Ney falou tudo baseado no mais rasteiro senso-comum. Em memes que pipocam no Facebook criticando o governo federal sem ter a noção de que o Brasil tem três esferas de governo a quem cabem atos que não são feitos e que não é de Brasília que vêm muitos dos desmandos e muitas das falcatruas. Falou com a mesma verve que falam aqueles que têm mais ódio do PT por ele ser “comunista” e se esquecem de que corrupção e tudo que há de ruim na política vem dos tempos das caravelas. Enfim, foi uma entrevista em que o Ney Matogrosso não foi o Ney Matogrosso, foi mais um desinformado com tantos que vemos em nossas timelines ou falando bobagem em mesa de bar.
A entrevista, claro, não me faz deixar gostar do artista Ney Matogrosso, sobre quem acho que um filme sobre sua vida viria muito bem, mas me desapontou. Até vir outra entrevista do Ney, coisa rara, terei medo. Será o Ney que li durante tanto tempo ou esse, desgostoso, como muito de nós, com a atual situação do País, mas criticando o que não deve e nem a quem se deve. Essa nudez do velho Ney, sinceramente, nós seus fãs e admiradores de sua lucidez, dispensamos.

Bota na conta do Papa

O Papa é pop, o Papa é homem e o Papa tem paixões e gostos como qualquer um de nós. E esse Papa Francisco revelou a nós, pobres diabos apaixonados por essa coisa profana chamada futebol, que ele também gosta do riscado. Desde sua eleição ao Trono de Pedro, apareceu uma foto no, então, Jorge Bergoglio, com uma camisa do seu time do coração, o San Lorenzo de Almagro. Coisa de sul-americano. Talvez, mas terminou sendo mais simpático. A nós, sul-americanos. Talvez.
Seja como for, o esporte mais popular do planeta não parece fazer parte da história de seus antecessores. Isso porque prefiro pontuar aqueles a que vi desde que nasci. Qual, na Polônia, era o time de Karol Wojtila, sua Santidade João Paulo II? O bávaro Joseph Ratzinger, o Papa Emérito Bento XVI, teria vibrado com o título do alemão e também bávaro Bayern no campeonato nacional? Ou torce para algum outro? Perguntas difíceis para nós, que vemos esses chefes religiosos e de Estado na TV. Seus biógrafos podem ter a resposta, mas para buscá-la devemos ter por eles paixão parecida com a que temos pelos nossos times. É ver quem se habilita.
O tema me vem à tona uma vez que essas semanas, o glorioso San Lorenzo bateu o Grêmio nas oitavas de final da Libertadores da América e o Cruzeiro nas quartas. Ajudou a ceifar brasileiros do torneio. Lá do Vaticano, certamente alguém curtiu essa vitória. Sobre o San Lorenzo, vale dizer que o time está para a Argentina, guardada as proporções, ao o que é o Vasco no Brasil. Também que Almagro é o bairro de Buenos Aires onde foi fundado. Como todos os clubes argentinos, o San Lorenzo tem seus apelidos. No caso: El Ciclón, Los Cuervos e um que não deve agradar nada ao Papa: Los Santos Matadores. De qualquer forma, o San Lorenzo vem atravessando uma fase muito feliz. E coincidência ou não, essa fase tem melhorado desde a subida de Jorge Bergoglio ao Trono de Pedro. No ano passado, o San Lorenzo venceu o torneio Abertura do Argentino, que ocupa o segundo semestre do futebol de lá. Esse ano, o time classificou muito bem no grupo da Libertadores com certa dificuldade e, depois, uma classificação heroica contra o Grêmio nos pênaltis. Contra o Cruzeiro, o Ciclón teve uma vitória na Argentina e um empate jogando o fino em Minas Gerais. Coincidência?
Na Argentina, o San Lorenzo equivale, guardadas todas as proporções, ao próprio Cruzeiro ou ao Atlético, um time que figura entre os grandes e tradicionais do País, mas de torcida mais restrita e regional. Se entendermos que o futebol argentino se resume, quase todo a Buenos Aires e algumas cidades ao redor. Poucos times argentinos são de fora desse círculo. No entanto, o momento do San Lorenzo é excepcional. A brincadeira que se faz sobre ajuda divina e uma mãozinha do Papa é engraçada, mas descredita o bom trabalho feito pelo clube. É bem verdade que a Libertadores desse ano foi cruel com equipes tradicionais como com os times brasileiros. Além de habitueés como Boca Jrs, River Plate, Colo Colo ou Olimpia, que nem se classificaram, os uruguaios Peñarol e Nacional e o Universidad de Chile ficaram pelo caminho. O time do Jorge Bergoglio, que não tem um título continental, não tem nada a ver com isso e vai trilhando, com a ajuda de Deus, a torcida do Papa e muita competência seu caminho à final. Aparentemente, as fases mais difíceis e os adversários mais complicados foram superados, mas ainda tem muita surpresa por vir. Lá do Vaticano, o Papa Francisco tem o que comemorar.

sábado, 1 de março de 2014

Aos que não gostam de carnaval (e aos que gostam também)

Já gostei muito de carnaval. Já pulei carnaval em salão, inclusive. No carnaval, ainda, foi a única vez em que fiquei bêbado, uma experiência horrível piorada por uma ressaca monstra. Desde então, passei a me afastar do carnaval. Me faltava pique para curti-lo mais. Assumi, definitivamente, minha paixão pelos desfiles via TV e por ela continuei minha folia.
Eram tempos em que não havia redes sociais, e se as havia não eram tão onipresentes e contundentes como hoje. Não havia tanta opinião nem tanta militância pró ou contra alguma coisa. Apenas curtia o carnaval quem gostava e ficava alheio, vendo filmes, lendo livros, fazendo qualquer coisa, quem não gostava. Com o advento, primeiro, do Orkut e mais tarde do Facebook, Twitter, Instagram e outros, a coisa virou um verdadeiro fla-flu. Quem gosta de carnaval louva a cultura brasileira, a identidade nacional, a alegria em se divertir, a beleza dos desfiles, dos blocos, dos trios-elétricos. Quem não gosta fala da promiscuidade, da música rasteira, da malícia demasiada, lembra os carnavais românticos de mil novecentos e vovó mocinha. Há exageros e desconhecimento e lugares-comuns nos dois fronts. Debate enriquecedor é algo que não se propõe. Os achismos e as opiniões tomam o lugar do embasamento. Talvez isso seja justo, afinal rede social não é simpósio ou assembleia pra discussões profundas, mas também não é casa da luz vermelha pra sair xingando a mãe dos outros.
Que hoje o carnaval não é aquele de anos atrás, qualquer um sabe e vê. Que virou um negócio, basta ver que um abadá em salvador tá saindo, por baixo, quinhentos reais e você pode fazer um igual comprando uma camiseta de dez mangos mais dez mangos em frufrus pra enfeitar. Que há promiscuidade, perversão e luxúria, há mesmo e – novidade – não é de hoje. O homem é um ser sexual. A luxúria existe 365 dias por ano, mas no carnaval encontra uma justificativa. Também não acho que o carnaval mereça esses fumos patriota-nacionalistas que muita gente atribui a eles. Carnaval não é tão identificado assim com a nação assim, mas com parte dela. Sua identificação é do tamanho da do carimbó, da congada, do boi-bumbá e tantos outros elementos festivos. Apenas é mais exportada. Tem um marketing maior por trás, mas é parte de um mosaico, comum num país do porte o Brasil. A cultura brasileira é muito variada. Injusto dizer que o carnaval seja algo característico do Brasil sendo que nem brasileiro genuinamente é. Mas tão abrasileirado foi e tantos elementos aglutinou que quem vê o carnaval de Veneza ri ao ver e ao saber que a coisa começou lá.
Para quem não gosta de carnaval, fica a sutil dica de não sair de casa durante os cinco dias da festa, já que a sexta-feira já faz parte dela também. Programe-se, viaje ou fique em casa. Nada o proíbe, democraticamente, de não gostar de uma festa popular, muito menos de manifestar isso. Mas a crítica feita com o mínimo de embasamento e o máximo de respeito é sempre melhor vista e mais bem vinda. A fuga dos lugares-comuns e os chavões tipo “em fevereiro as mina pira e em novembro as mina pari” são vazios e preconceituosos. Da mesma forma, se você gosta de carnaval, tome cuidado pra não ser arrogante. Existem festas tão divertidas quanto o carnaval e ritmos igualmente empolgantes. Não meça ninguém pelo que toca em sua playlist, e isso vale para as duas bandas.
No mais, para quem curta e quem não curta o carnaval, essa festa transformada em brasileira, mas dia a dia mais cheia de influências brasileiras e estrangeiras por ser dinâmica e democrática, fica os votos de um bom divertimento da forma que melhor aprouver. Do meu lado, tentarei assistir os desfiles até o sono chegar. Minha paixão por carnaval sempre acaba aí, pois mais que gostar de carnaval, gosto de dormir.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Eu e Renato, Renato e eu

Esses dias, o marido de uma prima me perguntou, meio que pra puxar assunto na falta de nenhum, se eu ainda escutava Legião Urbana e se eu era fã do Renato Russo, o que respondi que sim e sim. Coincidentemente, estou separando as cerca de dez mil músicas e montando pastas temáticas e no momento estou reouvindo TODAS as músicas do Legião e do Renato. Confesso que esses dias têm sido nostálgicos.
Conheci Legião com cerca de treze anos ouvindo Faroeste Caboclo. Nunca tinha escutado uma música tão demorada, mas o enredo e os palavrões (novidades pra mim numa música em português) me atraíram e feliz foi o dia em que consegui cantar TODA a música sem errar. Se isso fosse uma prova de proficiência em legiãourbanologia, com catorze teria sido admitido com louvor. Após isso, ouvia direto e brigava com quem não gostasse. Aconteceu. E vinte anos, mais, se passaram. E aí?
Aí que, confirmando o que disse ao marido da minha prima, sim, ainda escuto Legião além dessa coletânea, mas, evidentemente, vejo o Legião com outros olhos, mesmo nostálgicos.
Primeiro – e sempre – é a visão messiânica, idolatrada que eu e os da minha geração sempre tivemos do velho Renato. Uma coisa é verdade no mito: Renato Russo foi um dos últimos artistas da música brasileira que tinha algo a dizer. Vinha da nossa adolescência a falta de uma mensagem, de uma letra sólida. Vivemos o tempo dos sertanejos apaixonados e abandonados e amores fracassados para começar a cair no axé bundológico. Renato tinha letras de amores fracassados também, mas tinha letras políticas. Claro, havia uma visão tanto adolescente, certa forma rasteira, que povoava capas de cadernos (minhas inclusive), mas era poesia, e poesia boa. Mesmo que não fosse tão boa assim e houvesse coisa melhor, mas sempre anterior e pouca coisa contemporânea.
Segundo, e isso é sempre bom que se frise, é algo que falta a muitos artistas hoje: CARISMA. Só as músicas do velho Renato não seriam o bastante se não houvesse o carisma para fazê-lo o tal mito messiânico que nos prendia a escutá-lo e, mais que isso, torcer por um show. Sabe-se que Renato Russo não era fã de apresentações ao vivo e suas turnês eram curtíssimas. Primeiro porque ele não gostava e, mais tarde, por conta da saúde debilitada pela doença que o levou. Talvez por isso, três discos lançados post mortem sejam de registros ao vivo. Da minha parte, uma das frustrações de adolescente foi não ter visto Renato ao vivo aqui em Prudente. Hoje lamento menos isso. Ouvindo as gravações de shows nessa coletânea rememoradora é fantástico ver como ele era adorado pelos seus fãs. Mas nota-se que faltava certo tato, o que é compensado com declamações, piadas e gagues que agradam a audiência, mas hoje não diz tanto.
De fato, o velho Renato Russo e o Legião já não fazem parte do meu cotidiano musical como fizeram um dia. Hoje dividem espaço com a velha MPB, alguma coisa de jazz, um sertanejo mais antigo, toques de sons regionais e bastante coisa do velho rock n’ roll. Mas se hoje sou musicalmente plural, muito devo ao próprio Renato e tantas influências. Talvez ainda escute Legião e Renato, mas de forma indireta. A resposta ao marido da minha prima foi a mais apropriada possível.