domingo, 13 de julho de 2014

A vergonha da evolução

Copa de 2006, o Brasil vai pra Alemanha com remanescentes do pentacampeonato no torneio anterior. Ronaldo está mais velho e entrou na fase descendente de sua gloriosa carreira. Cafu e Roberto Carlos, fundamentais naquele time, também estão mais velhos. Kaká, reserva naquele episódio, é o nome da equipe. Ronaldinho Gaúcho, que nunca jogou pela seleção a bola do Barcelona, leva a esperança de que desencante. O time passa sem sustos e sem um futebol vistoso pela primeira fase, bate a boa e inexperiente seleção de Gana nas oitavas de final. Diante da França, equipe grande, nas quartas de final, cai. Zidane joga o fino da bola e leva seu país ao vice-campeonato.
Copa de 2010, a seleção de 2006 aposenta os medalhões de 2002. O time tem como técnico Dunga, capitão do tetra em 1994, mas que nunca treinou um time antes. Contestado e às turras com a Imprensa, Dunga mostra serviço e um futebol feio ainda que tenha jogadores habilidosos. Kaká joga no sacrifício. O Brasil passa por um grupo relativamente fácil com Coreia do Norte e Costa do Marfim, mas empata com a segunda força da chave, Portugal. Oitavas de final tranquilas contra o Chile e quartas de final contra a tradicional Holanda. Eliminação com falha do goleiro Júlio César. Outra vez o Brasil é eliminado pela futura vice-campeã e outra vez fica entre os oito melhores do torneio.
Copa de 2014, o Brasil joga em casa com uma seleção de menos qualidade que as das duas Copas anteriores. O técnico é o do pentacampeonato, mas o nível da equipe é muito inferior. Faz uma primeira fase que não convence, não agrada, mas é o bastante pra ser o primeiro de um grupo cascudo. Nas oitavas de final joga contra um Chile valente, vence a peleja nos pênaltis. Nas quartas de final tem uma relativa moleza: A Colômbia fez uma grande Copa, mas não tem o calo da vitória. O Brasil joga uma partida feia, seus atacantes não funcionam, seu meio campo não existe, mas há muita raça. Os zagueiros decidem. O Brasil vence e se classifica para as semifinais, o que não acontecia desde 2002. Agora estamos entre os quatro melhores, um passo além. A semifinal é contra a Alemanha e a Seleção toma um histórico e humilhante 7-1, o que credencia para a consolável decisão de terceiro lugar. Nova derrota para a Holanda. O Brasil, em casa, está entre os quatro melhores do torneio. A frente de campeões tradicionais como Itália Uruguai, França e Inglaterra e muito a frente da última campeã, a Espanha.
E estamos todos tristes, envergonhados e humilhados.
Somos o quarto melhor time do mundo entre os trinta e dois melhores e quase duzentas seleções chanceladas pela FIFA. Seleções que nunca disputaram uma Copa e dificilmente a disputarão porque perder de sete, pra elas, é cotidiano.
Estamos, frise-se, melhores que seleções tradicionais, campeãs. A segunda seleção em títulos, a Itália, foi eliminada na primeira fase da Copa. Igual destino da atual campeã e do futebol mais vistoso dos últimos seis anos. Mas o futebol, como tudo, muda. A imbatível Espanha está na tábua ao lado de Honduras, de Irã.
Às cacetadas e contra qualquer perspectiva séria e sem paixão, numa comparação fria, evoluímos. De um grupo de oito, agora estamos em quarto. E mesmo assim, essa seleção toma pedrada de todo lado.
Pedradas justas, pois se a eliminação para uma Alemanha, como as anteriores, é aceitável, a derrota de sete não. A distância entre os dois times na Copa foi flagrante, mas o jogo a distorceu. O evento escalonou de forma exagerada. Haveria uma derrota, mas não essa. Não dessa forma. O resultado mascarou a evolução, o degrau acima. Queríamos disputar sete jogos na Copa e disputamos. Não o que se pretendia, mas a decisão de terceiro lugar só é acessível a semifinalistas. Só a efeito de comparação: A Itália, campeã em 2006, amargou duas eliminações seguidas na primeira fase. Mesmo longe do penta, fizemos melhor que os italianos em duas ocasiões. Um campeão involuiu, e não fomos nós.
É preciso acabar definitivamente com esse estigma de “pentacampeão”. Somos, e se somos foi por mérito nosso. Foi porque, num período de doze anos, de 1858 a 1970, tivemos esquadrões. E é sempre bom lembrar que nesse período de franca evolução, em 1966, bicampeões, com Pelé, com Garrincha nos seus últimos instantes, fomos eliminados numa primeira fase. Sem perder de sete, mas igualmente vexatório.
Depois a Fênix renasceu e em 1970 veio o tri incontestável. Viramos, de vez o país do futebol. Outro títulos vieram, de tri viramos penta. Só que faz tempo. Doze anos. Na Rússia serão dezesseis. Temos cinco taças com alguma poeira. Não representa o que é o futebol brasileiro hoje. Não serve de parâmetro. O título era provável, nunca foi nosso. Nunca tivemos, como disse a Comissão Técnica, uma mão na taça. De 2002 pra cá paramos na França, na Holanda até subirmos um degrau para pararmos (e sermos jogados do alto?) na Alemanha. Somos penta, mas não somos campeões. O Brasil penta, assim como o Santos de Pelé, o Flamengo de Zico e, até, o Barcelona do tiki-taka, não existe mais. Só que diferente deles – e às cacetadas – evoluímos. Há a perspectiva de um passo maior, apesar dos 7-1 que nos impede de ver isso.

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