Uma das perguntas feitas em mesas-redondas após a
acachapante derrota de 7-1 ontem para a Alemanha foi: O que foi pior? Perder a
final de 1950 para o Uruguai ou a semifinal de 2014? Parece uma pergunta
difícil. Eu, pelo menos, não vivi 1950 e, penso, qualquer pessoa com menos de 74
anos, 10 à época, suficiente para uma consideração razoável sore o evento,
também não. Sem a comparação, apenas na base de depoimentos, uma análise fica
comprometida. O que temos daquele dia é que o Brasil era mais time, o Uruguai
foi um time valente e jogou pelos dois gols e que, em um deles, Barbosa,
goleiro do Vasco, foi o culpado. Essa condenação o perseguiu pela vida toda
ainda que, conta-se, fosse um ótimo goleiro, o melhor da história do Vasco
segundo muitos que o viram jogar.
Desde então, tem feito parte da cultura do brasileiro achar
um culpado para uma derrota. Compreende-se ao entender que o futebol é exageradamente
passional que, num grupo, alguém tenha que pagar o pato. Ainda mais em grupos
que segundo seus seguidores, haja o que houver, é o melhor do mundo, o
pentacampeão, o inigualável. Assim temos um Toninho Cerezo em 1982 errando
passe, um Zico em 1986 perdendo pênalti, um Júlio César em 2010 falhando num
gol. Quando não é um atleta, é o contexto. Em 1998, acusou-se uma suposta
falcatrua a favorecer a França. A Copa estaria comprada. Ninguém pensou que a
responsabilidade e a cobrança de uma decisão em cima de um menino de 21 anos
poderiam mexer com o emocional dele a ponto de um tilt. Esse tilt aconteceu, a
tal convulsão é fato e isso afetou o grupo, que já não era um primor e tinha um
técnico ultrapassado. A derrota por 3-0, a pior até então calou uma torcida e
mil barbosas apareceram. O maior, claro, se chamava FIFA.
Em 2002 a redenção. O título em cima da Alemanha. Alguns
erros de arbitragem favoreceram o Brasil no caminho, mas foram “normais”,
afinal “todo juiz erra”. A seleção, diferente de 1998, estava renovada, Ronaldo
estava amadurecido e já acontecia como craque, Rivaldo, discreto, era craque
também. A Alemanha tinha um time desacreditado e, contra todas as expectativas
chegou à final e perdeu. Conta-se que o técnico Rudi Völler, ao comparar as
duas escalações, admitiu que não tinha como vencer aquele Brasil. Aceitou o
vice campeonato resignado mesmo que tivesse um bom time e craques envelhecidos.
Mas aquele futebol alemão estava com os dias contados.
A Alemanha resolveu mexer em tudo. O futebol tático e físico
baseado na raça deu lugar à técnica. Os times alemães foram incentivados a
desenvolver suas bases, a mentalidade alemã mudou. O time tinha a obrigação de
levar o título jogando em casa em 2006. Para capitanear essa nova geração, um
velho craque e ídolo dessa molecada: Juergen Klinsmann assume a seleção, causa
polêmica ao comandar a Alemanha morando nos Estados Unidos, desvencilha-se
disso. Resultado com um time de garotos e alguns veteranos pra dar a famosa
liga: terceiro lugar. Copa de 2010, muda o técnico, aqueles meninos que fizeram
bonito na Copa anterior ficam, alguns novos aparecem. A Alemanha ariana dá
lugar a descendentes turcos, tunisianos, albaneses e africanos, mas alemães, e
alguns naturalizados. Uma Alemanha à brasileira no físico, miscigenada, e no
futebol, técnica e envolvente. Outro terceiro lugar, mas após uma Copa muito
melhor e uma diferença: Nesse interregno de três Copas em oito anos, a Alemanha
não escolheu um Barbosa. Não foi culpa do Kahn, do Klinsmann, do Loew, da bola...
A culpa, se é que pode ser chamada assim, era do estilo. Mudemos o estilo.
Mudemos a mentalidade. A Alemanha mudou e só fez ser a seleção mais regular nas
últimas quatro Copas, onde figurou, pelo menos, na semifinal.
Quando perguntados sobre o que faltava ao futebol alemão,
dirigentes e treinadores respeitáveis são unânimes: Alegria. Juergen Klopp,
técnico do Borussia Dortmund disse que “os alemães não sabiam que poderiam ser
tão despreocupados, felizes e alegres, exatamente como fazem os brasileiros”. Não
à toa, seu time é um dos melhores do País e da Europa. Claro que só alegria não
garante sucesso. Seriedade também. A Alemanha reformulou seu campeonato, passou
a apostar mais no material de casa, tornou a Bundesliga numa das mais fortes,
competitivas e rentáveis da Europa e a Federação aproveitou essa onda montando
boas seleções. Com alemães.
A seriedade alemã veio pra nossa Copa. A Alemanha treina
séria e focada e aproveita o país. Vai à praia, curte a Bahia, é simpática e em
toda sua estadia teve um único dia de folga. Seriedade alemã com simpatia
brasileira. Pragmatismo alemão com técnica brasileira. Talvez seja o momento de
se inspirar na Alemanha não como o time, mas como o todo. Campeonato,
federação, estrutura. E nesse reflexo reencontrar o que sempre tivemos: Alegria
agasalhada pela seriedade. Quem sabe assim, o fantasma de 2014 assombre
menos, o de 1950 seja esquecido e até o
injustiçado Barbosa descanse em paz.



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