Se tem um artista de quem gosto, e muito, é o Ney Matogrosso.
Como não gostar de um sujeito que, em plena Ditadura militar, surge com um
visual andrógino, rebolativo e, antes de tudo, interpretando magistralmente
canções e poesias? Seu aparecimento no meteórico Secos e Molhados sobreviveu à
fogueira de vaidades que foi o grupo e perdurou com o talento do showman que
era. A releitura de clássicos da MPB e de nomes graúdos como Cartola, Chico
Buarque além da feliz busca de novos (e bons) compositores são muito maiores
que seu propalado namoro com Cazuza. Outra coisa da qual sempre gostei no Ney é
sua postura muito sóbria e honesta em relação a sua sexualidade. Ele mostra
que, sim, você pode ser bissexual, homossexual, defender bandeiras sem necessariamente
ser radical, extremista ou caricato. A luta que os grupos GLBTS encampam hoje,
Ney já tomava, discretamente, há muitos anos. E tinha sucesso, mas também tinha
inimigos e dissabores. Muito maior que isso, e sem se envolver com grandes
corporações a ponto de vender a alma, ele está aí há mais de trinta anos e uma
carreira vitoriosa.
Muita gente, no entanto, diz que, dentro da MPB, Ney é um
nome menor. Não concordo. É certo que, diferente de seus contemporâneos Chico,
Caetano, Milton, Ney não compôs uma linha. Não tem problema. Ney cantou
composições desses grandes compositores magistralmente. A vida é assim. Alguns
escrevem, outros cantam. Outros, como Caetano e Milton (concordemos, Chico
Buarque não serve pra intérprete) fazem os dois. Mas Ney, como seus pares, também
se destacou por ser um artista muito esclarecido e, ao seu modo, engajado. Como
disse, ele defende bandeiras que mexem com tabus. Também sempre foi muito
consciente em críticas contra os governos, contra a classe artística, mas
sempre com comedimento. Diferente de um Caetano Veloso, por exemplo, não dava
entrevistas pomposas e cheias de retóricas nem se metia a ser um grande
entendedor de tudo. Entrevistas dele, como as de Chico, sempre foram poucas e
muito bem postas. Da minha parte, sempre concordei com muitas coisas que ele
falava, pois sempre via lucidez e conhecimento na sua fala. Até agora.
Deu que recentemente, em Portugal, onde foi fazer alguns
shows e divulgar seu novo (e bom) disco Atento
aos Sinais, durante uma entrevista, Ney resolveu soltar a boca em críticas pesadas contra o governo
federal, os projetos sociais. Foi desmedido e nebulosamente preconceituoso. Deu
a entender que muita coisa foi falada sem o menor conhecimento de causa. Tudo
bem que o Bolsa Família mereça uma discussão mais atenciosa sobre sua razão de
ser, mas tem critérios, e muito justos, para sua existência, por exemplo.
A impressão que ficou é que Ney falou tudo baseado no mais
rasteiro senso-comum. Em memes que pipocam no Facebook criticando o governo
federal sem ter a noção de que o Brasil tem três esferas de governo a quem
cabem atos que não são feitos e que não é de Brasília que vêm muitos dos
desmandos e muitas das falcatruas. Falou com a mesma verve que falam aqueles
que têm mais ódio do PT por ele ser “comunista” e se esquecem de que corrupção
e tudo que há de ruim na política vem dos tempos das caravelas. Enfim, foi uma
entrevista em que o Ney Matogrosso não foi o Ney Matogrosso, foi mais um
desinformado com tantos que vemos em nossas timelines ou falando bobagem em
mesa de bar.
A entrevista, claro, não me faz deixar gostar do artista Ney
Matogrosso, sobre quem acho que um filme sobre sua vida viria muito bem, mas me
desapontou. Até vir outra entrevista do Ney, coisa rara, terei medo. Será o Ney
que li durante tanto tempo ou esse, desgostoso, como muito de nós, com a atual
situação do País, mas criticando o que não deve e nem a quem se deve. Essa
nudez do velho Ney, sinceramente, nós seus fãs e admiradores de sua lucidez,
dispensamos.


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